Tinhas entrado para a sala das operações e mesmo antes de entrar deixaram-me ir dar-te um beijo. Comigo, o teu irmão e uma enfermeira que nos guiava por um terrível corredor de hospital! Na minha mente, não te minto, uma sensação esquisita, aquela que sempre me afastou dos hospitais… Ansiava chegar à tua beira, ver-te os olhos, ler-te o pensamento e esperar que esse me acalmasse!
O teu irmão arrancou-te um sorriso à chegada e eu a medo lá me cheguei a ti! Fiz-te festas no cabelo para te apaziguar a dor, para te mimar e me acalmar… Depois só me lembro de te ver chorar, nem sei bem porque, chorou o teu irmão contigo e recordo-me agora, que mesmo antes de o enfermeiro te vir buscar o teu irmão quase que sussurrado te disse “ Gosto tanto, tanto de ti mana” , terá sido isso que te arrancou algumas lágrimas disfarçadas com um sorriso e ouve uma troca de olhares arrepiante entre ti e ele… Sei agora que tive a prova de existirem almas que se completam! A tua e a dele são a mais viva prova disso mesmo!
A mesma enfermeira que nos levou até ti acompanhou-nos por uma labirinto que nos levou até uma sala de espera! Um silêncio de morte apoderou-se de todos, acho que havia alguém a rezar, talvez e só para não teres dores!
Afastei-me de todos e refugiei-me nos cigarros! Pensei em ti e em tudo o que és para todos os que estavam ali a torcer por ti! És um porto de abrigo, és conselheira, amiga, confidente mas mais que tudo és amiga! Este meu pensamento era interrompido por telefonemas a perguntar por ti, todos torciam por ti!
Na minha mente dois retratos teus, o de uma louca na noite que me disse quase que inconscientemente “vou conseguir tudo o que quero e tudo o que querem de mim” e o outro de uma menina pequenina que chorava calada por uma dor que não passava e que me perguntava em desespero “ porquê a mim?!”. Tu és isto, no segundo a seguir a dor reina em ti uma esperança que te ultrapassa que nos fascina e que nos mostra que a vida é luta e garra!
Do vidro o teu irmão fez-me um sinal, seriam notícias tuas, teria acabado a tua dor! Corri e à chegada diz-me o teu irmão que afinal o teu coraçãozito que tanta coisa tem lá dentro estava fraco! Pela segunda vez! Num instante, toda a dor que te acompanhou nas últimas horas apoderou-se de todos nós! Chorou-se muito e ansiava-se notícias! A explicação era simples como nos disse um dos médicos “ provavelmente é consequência de um grande desgaste físico, ela tinha as tensões baixas e a anestesia deixou-a mais vulnerável! Terá sido também das dores!” por momentos pensei que ele falava das outras dores “Mas está vigiada e controlada, vai ser difícil acorda-la, temos que esperar! “. Esperamos todos e na cabeça de cada um, aposto que reinava a mesma pergunta retórica que em fizeste “porquê a ela?!”
Mas tu acordaste, passado muitas horas acordaste, esperamos por ti no quarto que te devolveria ao sono, chegaste branca, serena, como se nada se passa-se, forçaste os olhos e sorriste timidamente, e da tua boca só palavras de tranquilidade “tou bem, vão descansar! Obrigada” … E, em segundos, voltaste a dormir no mais tranquilo dos sonos como se nada te perturbasse como se fosses um anjo!